Em 1948, o psicólogo norte-americano Bertram Forer aplicou um teste de personalidade a seus alunos e entregou a cada um o que parecia ser o resultado individual. Pediu que avaliassem a precisão da descrição. As notas foram altas: a turma considerou os perfis bastante certeiros. Só havia um detalhe — todos receberam exatamente o mesmo texto, montado por Forer a partir de frases colhidas em colunas de horóscopo de banca de jornal.
O fenômeno ganhou depois o nome de efeito Barnum, numa referência ao empresário de circo que dizia ter algo para agradar a todo mundo. É um dos resultados mais replicados da psicologia popular, e qualquer pessoa que leia cartas precisa conhecê-lo — não para desistir, mas para não se enganar sobre o motivo de uma leitura ter agradado.
Por que o tarô é especialmente vulnerável
A força do tarô é a amplitude de cada carta, e a amplitude é exatamente a matéria-prima do efeito Barnum. Uma carta admite muitas leituras legítimas; a mais genérica delas vai soar verdadeira para quase qualquer consulente. Dizer que a pessoa está num momento de transição, que carrega um peso que ainda não nomeou e que tem uma força que não reconhece em si é uma descrição que acerta praticamente todo adulto vivo.
Pior: a leitura genérica é recompensada. O consulente confirma, se emociona, elogia. Quem lê recebe o sinal de que acertou e repete a fórmula. O circuito se fecha e ninguém percebe que a especificidade ficou de fora.
Três mecanismos que trabalham juntos
A frase de dois polos. Afirmações que contêm a si mesmas e o seu contrário: você é sociável mas precisa de recolhimento; é generoso, embora saiba se proteger. Qualquer pessoa encontra ali o lado que lhe cabe e ignora o outro.
A validação seletiva. De dez afirmações, duas acertam em cheio e oito passam batido. A memória guarda as duas. Semanas depois, a leitura é lembrada como impressionante — e tecnicamente foi, em vinte por cento dela.
A colaboração do consulente. Diante de uma frase vaga, a pessoa procura ativamente em que a frase se aplica à vida dela, e encontra. Esse trabalho é feito por quem ouve e creditado a quem fala.
Quatro testes que qualquer um pode aplicar
- O oposto também seria verdade? Se dizer o contrário soaria igualmente certeiro, a frase não informou nada.
- Isso serviria para a maioria das pessoas? Se sim, não é sobre você.
- Foi dito algo com que eu poderia ter discordado? Leitura que não corre risco de errar também não corre risco de acertar.
- Quem levantou os detalhes, eu ou quem lia? Se você forneceu os nomes, as datas e o contexto, a leitura devolveu a sua própria informação.
O que fazer com isso
Há duas reações possíveis ao conhecer o efeito Barnum, e uma delas é preguiçosa. A preguiçosa é concluir que tudo é ilusão e encerrar o assunto. A outra é usar o efeito como critério de qualidade: se o elogio fácil vem da vagueza, então a vagueza passa a ser o que se deve evitar.
Na prática, isso muda o jeito de ler. Em vez de descrever a pessoa, descreva a carta — o que está desenhado, onde caiu, o que aquela posição perguntava. Em vez de afirmar sobre a vida de quem ouve, devolva pergunta. E prefira a leitura que incomoda um pouco à que só faz concordar: uma leitura útil costuma produzir atrito, não aceno de cabeça.
Vale dizer que reconhecer esse efeito não derruba o método — derruba uma certa forma de vendê-lo. O que resta de pé é a parte que não depende de parecer certeira, tratada em o que o tarô não responde. E, do lado prático, é o melhor filtro que existe para avaliar quem oferece leitura, como se vê em como avaliar quem lê tarô.