O baralho Thoth: cinco anos de pintura e décadas de espera

Paleta de madeira coberta de tinta a óleo seca, ao lado de pincéis gastos numa mesa de ateliê

O segundo baralho mais influente do século XX nasceu de um acordo simples entre um ocultista em decadência financeira e uma pintora com dinheiro e paciência. Era para ser um projeto de três meses. Durou cinco anos, e nenhum dos dois viveu para ver o resultado nas lojas.

A dupla

De um lado, um autor inglês conhecido e malquisto, que havia passado pela mesma ordem ocultista londrina do fim do século anterior e que, nos anos 1930, vivia com dificuldade. Do outro, uma pintora casada com um parlamentar, interessada em geometria projetiva e disposta a bancar o trabalho.

Ela não foi contratada: financiou o projeto com um pagamento semanal e manteve o controle do material. Essa inversão explica por que o baralho leva a marca visual dela de forma tão evidente.

Cinco anos, e algumas cartas refeitas várias vezes

O plano inicial era adaptar imagens tradicionais. A ambição cresceu, e cada carta virou um problema de composição a ser resolvido. Há registro de cartas repintadas várias vezes até satisfazerem os dois, com discussão por carta sobre cor, forma e correspondência.

O resultado é visualmente único no tarô: formas que se interpenetram, planos que se cruzam, nada do realismo narrativo do baralho inglês de 1909. É um baralho de abstração, e exige outro tipo de leitura.

O livro saiu primeiro

O texto que acompanha o baralho foi publicado em 1944, em tiragem pequena e encadernação cara, para poucos assinantes. As cartas, essas, ficaram guardadas. O autor morreu em 1947. A pintora, em 1962. O baralho só chegou ao público em 1969, mais de vinte e cinco anos depois de a última pincelada ter secado.

A publicação tardia pegou uma geração nova e curiosa, e o baralho virou referência justamente no momento em que o interesse por esoterismo explodia no mundo anglo-saxão.

Como ele se compara

  • Linguagem: abstrata e simbólica, contra a narrativa figurativa do baralho de 1909
  • Aprendizado: mais difícil para quem começa, porque a cena não conta a história sozinha
  • Sistema: segue as mesmas correspondências de astrologia e cabala, com ajustes próprios do autor

O que isso tem a ver com a leitura de hoje

Mostra que não existe um tarô, e sim linhagens. Duas pessoas formadas no mesmo sistema produziram baralhos quase opostos em forma e em exigência. Quem estuda precisa saber de qual linhagem vem o material que está lendo, porque as tabelas não são intercambiáveis.

A comparação entre as escolas aparece em Tarô: as 78 cartas e a história.

O que não dá para afirmar

A relação entre os dois é contada principalmente pela correspondência que sobreviveu, de um lado só em várias passagens. A divisão exata de autoria entre quem concebeu e quem pintou continua em discussão, e versões que atribuem tudo a um ou a outro simplificam demais.

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