Quase tudo que medimos foi convertido para o sistema decimal. Peso, distância, volume, dinheiro. O tempo resistiu. A hora continua tendo sessenta minutos, o minuto continua tendo sessenta segundos, e a razão disso é uma herança com cerca de quatro mil anos.
O 60 é bom de dividir
Os sumérios e depois os babilônios trabalhavam em base sessenta. A escolha tem lógica prática: 60 se divide exatamente por 1, 2, 3, 4, 5, 6, 10, 12, 15, 20, 30 e 60. São doze divisores, contra quatro da base dez.
Para quem reparte terra, carga, tempo de trabalho e tributo sem calculadora, isso é uma vantagem diária. Um terço de sessenta dá vinte, exato. Um terço de dez dá dízima.
Como a conta chegou ao relógio
Os egípcios dividiram o dia em doze horas de luz e doze de escuridão, usando grupos de estrelas como referência. A astronomia grega, e depois a alexandrina, adotou a base sessenta dos babilônios para subdividir ângulos e intervalos com precisão.
O nome entrega o processo. Em latim, a primeira subdivisão da hora era a pars minuta prima, a primeira parte pequena. A subdivisão seguinte era a pars minuta secunda, a segunda parte pequena. Minuto e segundo são literalmente isso: a primeira pequena e a segunda pequena.
O relógio demorou a alcançar a teoria
A divisão existia no papel muito antes de existir no mostrador. Os primeiros relógios mecânicos não tinham ponteiro de minutos, porque nem precisão para isso havia. O ponteiro de minutos se tornou comum a partir do século XVI, e o de segundos bem depois. Durante séculos, o segundo foi uma unidade que só existia no cálculo.
O único que deixou de ser astronômico
Há uma reviravolta moderna. Desde 1967, o segundo não é mais definido por uma fração do dia, e sim por um fenômeno atômico: um número exato de oscilações de um átomo de césio. A rotação da Terra varia, e passou a ser ela que se ajusta ao relógio, com os segundos bissextos, e não o contrário.
A mesma base sessenta sobrevive nos ângulos: o círculo tem 360 graus, cada grau tem 60 minutos de arco, cada minuto tem 60 segundos de arco. É por isso que a latitude e a longitude de um lugar são lidas como se fossem horário.
O que isso tem a ver com numerologia
Se a base de contagem tivesse sido sessenta também na escrita de números, a redução numérica pararia em cinquenta e nove, e não em nove. Nenhuma tabela de significados que existe hoje teria sobrevivido a essa mudança, e esse é o argumento central de por que a numerologia tem nove números.
O 12, que organiza as horas e o zodíaco, aparece pelo mesmo motivo prático, como mostra a história da dúzia.
O que não dá para afirmar
Não se sabe ao certo por que os sumérios adotaram a base sessenta, e há várias hipóteses em disputa, da contagem nas falanges à fusão de dois sistemas anteriores. O que se sabe é o resultado, e que ele durou mais que todos os impérios que o usaram.


