Court de Gébelin e a invenção da origem egípcia do tarô

Relevo egípcio antigo em pedra desgastada numa galeria de museu, com luz rasante

A história de que o tarô guarda uma sabedoria egípcia milenar é contada até hoje, em livro e em vídeo. Ela tem autor, data e endereço: nasceu em Paris, em 1781, num volume de uma enciclopédia escrita por um erudito chamado Antoine Court de Gébelin.

O que ele afirmou

Segundo o relato dele próprio, bastou ver um baralho de tarô numa reunião social para reconhecer, nas imagens, os restos de um livro egípcio perdido. As cartas teriam sido o disfarce encontrado pelos sacerdotes para preservar o conhecimento da destruição: ninguém queima um baralho de jogo.

A tese era sedutora e explicava tudo de uma vez: a estranheza das figuras, a sobrevivência do conjunto, o número de cartas. No mesmo volume, um colaborador acrescentou a ideia de ligar os vinte e dois trunfos às letras hebraicas, outra associação que ia durar.

O problema óbvio

Ele não sabia ler egípcio. Ninguém sabia. Os hieróglifos só começaram a ser decifrados em 1822, mais de quarenta anos depois, e nada do que se leu desde então menciona nada parecido com um baralho.

Não há carta egípcia, não há texto que descreva uma, não há registro arqueológico. As cartas de jogo entraram na Europa pelo mundo islâmico no fim do século XIV, e os trunfos foram acrescentados na Itália, no século XV, com documentação farta.

Por que a lenda pegou mesmo assim

Porque chegou na hora certa. A Europa vivia um fascínio crescente pelo Egito, alimentado por relatos de viajantes e, pouco depois, pela campanha militar francesa na região, que levou cientistas junto com soldados. Tudo que parecia egípcio ganhava prestígio imediato.

Havia também uma conveniência narrativa. Um jogo de cartas renascentista é interessante; um livro sagrado sobrevivente de uma civilização antiga é irresistível. A segunda versão vendeu mais, e continua vendendo.

O que isso ensina sobre leitura

Vale a pena separar as duas coisas que o ensaio de 1781 misturou. A prática de ler cartas é real, tem dois séculos e meio de história e pode ser estudada a sério. A origem egípcia é uma afirmação histórica sem nenhuma evidência, e descartar uma não obriga a descartar a outra.

A história documentada do baralho, desde 1440, está reunida em Tarô: as 78 cartas, a história e o que elas realmente fazem.

O que não dá para afirmar

Não dá para dizer que ele mentiu de propósito. Court de Gébelin era um estudioso respeitado e trabalhava com os métodos da época, que aceitavam semelhança visual como prova de parentesco. O erro foi de método, e é o mesmo erro que continua produzindo teorias bonitas hoje.

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