O Sola Busca de 1491: o baralho que chegou antes e ninguém citava

Chapa de cobre gravada com linhas finas incisas, vista bem de perto sob luz rasante

A grande inovação atribuída ao baralho inglês de 1909 foi ilustrar os arcanos menores com cenas, em vez de repetir o símbolo do naipe. O problema dessa história é que isso já tinha sido feito quatrocentos e dezoito anos antes, na Itália.

Um baralho fora de série

O conjunto conhecido como Sola Busca, do fim do século XV, é excepcional por três motivos ao mesmo tempo. É o único baralho completo de 78 cartas que sobreviveu daquele século. Foi inteiramente gravado em metal, e não pintado à mão nem impresso em madeira, o que era tecnicamente avançado para cartas. E traz cena em todas as cartas, inclusive nas menores.

Os trunfos também fogem do padrão: em vez das alegorias usuais, trazem figuras ligadas à história antiga, com nomes próprios. É um baralho culto, feito para um encomendante culto.

As fotografias de 1907

Aqui a história fica interessante. Em 1907, fotografias do baralho inteiro chegaram a um grande museu londrino e passaram a estar disponíveis para consulta na cidade onde, dois anos depois, uma ilustradora desenharia as 78 cartas do baralho que viria a ser o mais vendido do mundo.

Algumas composições são parecidas demais para passar como coincidência. Há cartas em que o arranjo das espadas, a postura da figura e até a atmosfera da cena se correspondem de forma direta.

Isso diminui o baralho de 1909?

Não, e vale dizer por quê. Inspirar-se em material acessível é prática normal de ilustração, e a autora não copiou um conjunto: usou referências pontuais dentro de um trabalho de 78 peças com linguagem própria e coerência visual que o original não tem.

O que a descoberta corrige é a narrativa. A inovação de ilustrar os menores não surgiu do nada em 1909: ela já existia, tinha sido esquecida e voltou à circulação no momento certo. História da arte funciona assim quase sempre.

O que isso tem a ver com a leitura de hoje

É um bom antídoto contra a ideia de tradição imutável. O tarô que se usa hoje é resultado de camadas: um jogo italiano, uma tese francesa do século XVIII, um sistema inglês do XIX, um desenho de 1909 que olhou para uma gravura de 1491.

Cada camada tem data e autor, e isso está reunido em Tarô: as 78 cartas e a história.

O que não dá para afirmar

Não há declaração nenhuma da ilustradora admitindo a influência, e a comparação é feita por semelhança visual. O argumento é forte e permanece circunstancial. Também não se sabe ao certo para quem o baralho italiano foi encomendado nem qual era a função pretendida dele.

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