Setenta e oito é um número esquisito. Não é redondo, não é potência de nada e não combina com nenhum calendário. A explicação é simples e pouco romântica: ele é a soma de duas histórias diferentes, que se encontraram na Itália do século XV.
As 56 vieram de fora
Cartas de jogar entraram na Europa no fim do século XIV, vindas do mundo islâmico. O baralho de referência era o mameluco, usado no Egito e na Síria, e tinha quatro naipes de treze cartas: dez numeradas e três figuras.
As três figuras eram o rei e dois subordinados. A palavra árabe para o subordinado era nāib, que significa representante ou lugar-tenente. Ela entrou no espanhol e no português e virou naipe: hoje a gente chama o conjunto inteiro pelo nome que designava uma única figura.
Na Europa, acrescentou-se uma quarta figura, a rainha, que não existia no baralho de origem. Treze viraram catorze, e quatro naipes de catorze dão cinquenta e seis.
As 22 foram invenção italiana
Por volta de 1440, no norte da Itália, alguém teve a ideia de acrescentar uma quinta série ao baralho: um conjunto de cartas ilustradas que venciam qualquer naipe. Eram os triunfos, e eram vinte e dois.
A função era de jogo, e não simbólica: trunfo é a carta que ganha das outras. O conteúdo das figuras seguia a iconografia alegórica corrente na época, com virtudes, astros e figuras do destino, que qualquer pessoa daquele tempo reconhecia sem precisar de manual.
Cinquenta e seis mais vinte e dois dão setenta e oito. É só isso.
Para comparar
- Baralho francês: 52 cartas, quatro naipes de treze, com três figuras cada
- Baralho espanhol: 40 ou 48, conforme a região e o jogo
- Truco brasileiro: 40, tirando oitos, noves e dezes do baralho francês
- Piquet: 32, usado em jogos europeus de vaza e, por séculos, na leitura de cartas comum
Nenhum desses números tem significado próprio. Todos resultam de escolhas práticas sobre quantas cartas cabem numa mão e quantas o jogo precisa.
O que isso tem a ver com a leitura
Ajuda a entender por que os arcanos menores e os maiores se comportam de forma tão diferente numa mesa. Eles não nasceram juntos nem com a mesma função: um conjunto é um baralho comum ampliado, o outro é uma série de figuras criada para passar por cima dele.
A estrutura completa está descrita em Tarô: as 78 cartas e a história.
O que não dá para afirmar
Não há nada na documentação do século XV que indique intenção numérica no total de 78. Leituras que decompõem o número em fatores e tiram daí significado estão trabalhando sobre um resultado acidental de duas tradições somadas.


