De todos os animais domésticos comuns, o gato é o único ausente do zodíaco chinês. Há boi, cavalo, cabra, galo, cão e porco, e nenhum gato. A explicação folclórica é divertida, a explicação histórica é mais interessante, e as duas valem ser contadas separadamente.
A explicação da lenda
Na versão folclórica, o gato era amigo do rato e pediu que ele o acordasse no dia da convocação dos animais. O rato não o chamou, de propósito, e o gato perdeu a seleção. Dessa traição teria nascido a inimizade entre as duas espécies. É uma história boa e circula em muitas versões, mas é narrativa popular tardia, criada para explicar a ausência.
A explicação histórica
A hipótese mais citada por historiadores é cronológica: quando a lista dos doze se formou, o gato doméstico provavelmente ainda não era animal familiar na China. A domesticação do gato aconteceu no Oriente Médio, a partir do gato-bravo africano, e a espécie se espalhou pelo mundo por meio de rotas comerciais, chegando à Ásia Oriental relativamente tarde.
Há uma nuance que a pesquisa recente acrescentou. Escavações na China encontraram ossos de pequenos felínos em sítios agrícolas antigos, e um estudo publicado em 2014 identificou que ali havia gatos-leopardo, uma espécie silvestre asiática distinta do gato doméstico, convivendo com aldeias por conta dos roedores atraídos pelos grãos. Ou seja, havia felínos próximos das pessoas, mas não o animal de casa que conhecemos.
A conclusão razoável é que o gato ficou fora por ausência, e não por exclusão: ele não estava na lista de bichos óbvios de quem organizou o ciclo.
No Vietnã, o gato está dentro
E aqui vem a melhor parte da história. No zodíaco vietnamita, a quarta posição não é do coelho: é do gato. Todos os outros onze animais coincidem, e apenas esse troca.
A explicação mais aceita é linguística. O quarto ramo terrestre, em chinês, tem leitura que soa próxima da palavra vietnamita para gato. Ao adotar o sistema, falantes de vietnamita teriam associado o sinal ao animal cujo nome lhes soava parecido, e a correspondência se fixou. É o tipo de mudança que acontece quando um sistema de escrita viaja para outra língua.
Esse detalhe é mais do que curiosidade: ele mostra que a ligação entre o sinal do calendário e o animal é convenção, e não essência. Se fosse propriedade do tempo, não mudaria ao cruzar uma fronteira.
E quem nasceu em ano de coelho?
Para quem usa o sistema chinês, o quarto signo segue sendo o coelho, e é por ele que se faz a leitura. Quem tiver ligação com a cultura vietnamita pode ler o próprio ano como gato, e nenhuma das duas opções é erro: são tradições paralelas sobre o mesmo ramo do calendário.
Vale apenas evitar a mistura. Somar os dois significados numa leitura única, juntando atributos de coelho e de gato, produz um retrato que não pertence a nenhuma das duas tradições.


