A pergunta tem resposta pesquisável: o ano de nascimento no calendário chinês prevê algum traço de personalidade? Esse tipo de afirmação pode ser testado, e foi testado, tanto na versão chinesa quanto na ocidental. O resultado é consistente, e não favorece o sistema.
O problema de tamanho
Comece pela aritmética. Cada ano chinês abrange, hoje, mais de cem milhões de nascimentos no mundo. Atribuir um conjunto de traços a esse grupo é afirmar que mais de cem milhões de pessoas se parecem por terem nascido na mesma janela de doze meses.
Para que isso fosse verdade, as diferenças entre grupos de anos diferentes teriam de aparecer em qualquer amostra razoável de população. Não é o que se observa.
O que os testes da versão ocidental mostraram
A astrologia ocidental, por ser mais estudada, oferece os testes mais rigorosos. Um experimento duplo-cego publicado na revista Nature em 1985, conduzido por Shawn Carlson, pediu a astrólogos que associassem mapas de nascimento a perfis de personalidade. O desempenho ficou no nível do acaso.
Outro trabalho influente, de Geoffrey Dean e Ivan Kelly, acompanhou mais de dois mil indivíduos nascidos poucos minutos uns dos outros, os chamados gêmeos de tempo. Se a hora do nascimento determinasse características, essas pessoas deveriam se parecer mais entre si do que o esperado. Em dezenas de medidas, não se pareciam.
Esses estudos não tratam do sistema chinês, mas atacam a premissa compartilhada pelos dois: que o instante de nascimento imprime traços.
O que apareceu quando o signo chinês foi investigado
Pesquisas sobre o signo chinês costumam encontrar efeitos, sim, mas no comportamento de quem acredita, não nos nascidos. O caso mais discutido é o das crianças de anos de Dragão, que apresentam melhor desempenho escolar em algumas populações.
Quando os pesquisadores controlaram a expectativa e o investimento dos pais, a vantagem desapareceu. O que explicava a diferença era a crença da família, e não o ano de nascimento. É o oposto de uma confirmação do sistema: é a demonstração de que a crença age sobre as pessoas, e o calendário não.
Efeitos reais que não são do signo
- Nascer numa coorte grande traz mais concorrência escolar e profissional.
- Nascer no início ou no fim do ano letivo afeta desempenho escolar, por idade relativa na turma.
- Expectativa dos pais e dos professores muda o investimento e o resultado da criança.
- Superstições sobre anos bons e ruins mudam o número de nascimentos, o que muda o ambiente de quem nasce.
Todos esses efeitos existem e são mensuráveis. Nenhum deles depende do animal.
O que ainda vale no sistema
Vale o que ele realmente é: um calendário com dois mil anos de uso, uma estrutura matemática elegante, um repositório de imagens e uma chave para entender arte, língua e costumes de boa parte da Ásia. Nada disso precisa de poder preditivo para ter valor.
E vale entender por que as descrições parecem certas mesmo sem serem, o que está explicado em efeito Barnum no horóscopo chinês. O caso do Dragão está detalhado em ano do Dragão.