A ideia é atraente: somar a data de nascimento com o ano corrente, reduzir o resultado a um número de um a vinte e dois e obter o trunfo que acompanha a pessoa naqueles doze meses. É simples de fazer, rende conversa e tem um ar de sistema antigo. Só que a prática é recente, e tem um problema que quase nunca é mencionado.
Como se faz, no método mais comum
Some os algarismos do dia, do mês e do ano corrente. Para quem nasceu em catorze de março, no ano de dois mil e vinte e seis: o dia dá cinco, o mês dá três, o ano dá dez. Cinco mais três mais dez dá dezoito — e dezoito, por estar dentro da faixa dos trunfos, é a carta do ano.
Quando a soma passa de vinte e dois, somam-se os algarismos do resultado até cair na faixa. Vinte e cinco, por exemplo, viraria sete.
O problema: as fórmulas não concordam
Circulam pelo menos três variações do cálculo, e elas produzem resultados diferentes para a mesma pessoa no mesmo ano.
- Há quem use dia e mês de nascimento com o ano corrente, como acima.
- Há quem reduza a data inteira de nascimento a um único número primeiro, e só depois some o ano.
- Há quem reduza tudo à faixa de um a nove, descartando os trunfos de dez a vinte e dois, o que muda completamente o conjunto de cartas possíveis.
E há ainda uma segunda divergência, independente da primeira: quando o ano começa. Para alguns autores, a carta troca em primeiro de janeiro; para outros, troca no aniversário da pessoa. As duas convenções fazem com que, durante vários meses, duas pessoas usando o mesmo site cheguem a cartas distintas.
Nada disso é errático por descuido. Acontece porque a prática não tem fonte única: ela foi proposta por autores de língua inglesa na segunda metade do século XX, cada um com sua versão, e se espalhou sem que nenhuma tenha prevalecido. Quem apresenta uma delas como a correta está escolhendo, não citando.
Por que a conta funciona tão bem no papel
Vale notar uma propriedade do cálculo que explica parte do seu charme. A soma dos algarismos de uma data costuma cair numa faixa estreita — raramente abaixo de cinco, raramente acima de trinta e cinco. Depois da redução, o resultado pousa quase sempre no mesmo grupo de trunfos, e as cartas mais extremas do baralho aparecem com frequência baixa. Em outras palavras: a conta não distribui as vinte e duas cartas de modo parelho, e isso é consequência da aritmética, não de significado. Quem quiser entender como esse tipo de redução se comporta encontra o mecanismo em como funciona o significado de cada número.
O uso que se sustenta
Descontada a pretensão de previsão, sobra uma aplicação boa e bem concreta: adotar uma carta como foco de estudo durante doze meses. Você escolhe — pela conta, ou simplesmente por interesse — e passa o ano voltando àquela carta: lendo sobre ela, observando onde o tema dela aparece na sua vida, anotando o que muda no seu entendimento ao longo dos meses.
Esse uso rende de verdade, porque uma carta estudada por um ano inteiro deixa de ser verbete e passa a ser repertório. É o oposto do estudo por lista, e tem a ver com o método descrito em como estudar tarô sem decorar.
O que não se sustenta é tratar a carta do ano como diagnóstico do que vai acontecer. Se o resultado muda conforme a fórmula escolhida, ele não pode ser a descrição de um fato — e reconhecer isso é justamente o que permite usar a prática sem se enganar com ela.


