Muito material trata a correspondência entre cartas e signos como se fosse parte da natureza do tarô. Não é. Os baralhos italianos do século XV não trazem atribuição astrológica alguma, e os primeiros três séculos de história do tarô passam inteiros sem essa ligação. Ela foi construída no século XIX — e foi construída com cuidado, sobre uma base numérica que vale conhecer.
A coincidência que tornou tudo possível
A astrologia divide o círculo do zódiaco em doze signos de trinta graus. Cada signo se subdivide em três faixas de dez graus, chamadas decanatos. Doze vezes três dá trinta e seis decanatos no total.
Agora o outro lado. Nos arcanos menores, cada naipe tem cartas numeradas de ás a dez. Tirando os quatro ases, que recebem tratamento próprio, sobram as cartas de dois a dez: nove por naipe, quatro naipes, trinta e seis cartas.
Trinta e seis de um lado, trinta e seis do outro. É uma coincidência estrutural, e foi ela que abriu a porta. No fim do século XIX, o grupo inglês que mais sistematizou o assunto usou exatamente esse encaixe: cada uma das trinta e seis cartas recebeu um decanato, em sequência, percorrendo o zódiaco. O trabalho está descrito em a Golden Dawn e o tarô.
As outras três camadas
O mesmo esquema distribuiu o resto do baralho. Os vinte e dois trunfos foram associados às letras do alfabeto hebraico e, por meio delas, aos doze signos, aos sete planetas conhecidos na época e aos três elementos restantes — uma soma que fecha justamente em vinte e dois. Essa ponte veio de Éliphas Lévi, e o caminho dela está em Lévi e o tarô hebraico.
As dezesseis cartas da corte receberam combinações de elemento sobre elemento — o fogo da água, a terra do ar — criando um sistema de temperamentos cruzados. E os quatro ases ficaram com as raízes dos elementos, fora da roda dos decanatos.
O conjunto é admirável como arquitetura. Cada carta do baralho ganhou endereço num mapa cósmico, sem sobra e sem falta. Quem gosta de sistemas fechados tem aí um dos mais bem acabados que o esoterismo produziu.
O que a elegância não prova
Vale uma ressalva que raramente acompanha o assunto. Encaixe perfeito é prova de bom projeto, não de origem comum. Os trinta e seis decanatos existem porque alguém dividiu trezentos e sessenta graus por dez; as trinta e seis cartas existem porque os baralhos europeus se estabilizaram com dez números por naipe. São duas decisões independentes, tomadas em contextos diferentes, que por sorte produziram o mesmo número.
Isso não invalida o uso. Só muda o que se pode afirmar: a correspondência é uma convenção útil criada por autores identificáveis, com cerca de cento e cinquenta anos, e não uma herança antiga reencontrada.
Precisa saber astrologia para ler tarô?
Não. E vale dizer isso com clareza, porque a ideia contrária desanima muita gente no início. Toda a tradição francesa de leitura funcionou sem atribuição astrológica, e a estrutura numérica dos menores já dá conta do trabalho por conta própria — é o que se vê em a escada numérica dos arcanos menores.
A camada astrológica acrescenta vocabulário e acrescenta também uma tabela para memorizar. Para quem já estuda astrologia, ela é um atalho natural: as duas linguagens passam a conversar. Para quem não estuda, é um segundo idioma inteiro antes de dominar o primeiro — e nesse caso faz mais sentido deixar para depois.
Uma última observação prática: se você adotar as atribuições, adote um sistema só e fique nele. Elas variam entre escolas, e misturar duas tabelas é uma das causas mais comuns de leitura confusa, como se vê em por que dois leitores divergem.


