Dizer que o tarô é um jogo de cartas costuma causar estranheza no Brasil, e não deveria. Ele nasceu assim no século XV, nunca deixou de ser jogado e, em alguns países, tem federação, campeonato e ranking nacional.
A mecânica é de vaza
Quem conhece truco, buraco ou qualquer jogo em que uma rodada tem um vencedor já entende o princípio. Cada jogador baixa uma carta, e quem baixou a mais forte leva a rodada, chamada de vaza. O objetivo é acumular pontos nas cartas recolhidas.
A novidade do tarô é a quinta série. Além dos quatro naipes, existe um conjunto de cartas que vence qualquer naipe: são os trunfos, que em português a tradição esotérica rebatizou de arcanos maiores. Entre eles, vence o de numeração mais alta.
A carta que foge das regras
O Louco tem função especial e cumpre, no jogo, exatamente o papel que o nome sugere. Ele pode ser jogado quando o jogador não quer ou não pode seguir o naipe pedido, e escapa da vaza sem vencê-la nem ser capturado, voltando para o monte de quem o jogou.
É um curinga de fuga, e é por isso que ele não tem posição fixa na sequência: no jogo, ele literalmente não entra na ordem de força.
Onde ele ainda é popular
- França: o jogo tem federação própria, torneios regulares e é jogado em mesa de quatro ou cinco pessoas
- Áustria e Hungria: variantes locais com nomes próprios e regras de leilão
- Sul da Alemanha e norte da Itália: versões regionais, algumas com baralhos reduzidos
Nessas mesas ninguém pergunta o que uma carta significa. Pergunta-se quantos pontos ela vale e se dá para segurar o trunfo mais alto até o fim.
Por que isso importa para quem lê
Conhecer o jogo muda a leitura de duas maneiras. Primeiro, explica a estrutura: por que existem exatamente quatro naipes com catorze cartas e uma quinta série por cima, e por que o Louco é diferente de todas as outras.
Segundo, protege contra uma narrativa comum, a de que o tarô sempre foi instrumento sagrado. Ele foi, e continua sendo, as duas coisas, em mãos diferentes e sem conflito nenhum.
O que não dá para afirmar
Jogar tarô não interfere em leitura nenhuma, e usar o mesmo baralho para as duas coisas também não. Quem prefere separar faz isso por organização pessoal, e não porque exista regra. Baralho de jogo e baralho de leitura são, historicamente, o mesmo objeto.


