Durante séculos, quem lia cartas usava o baralho que tinha em casa, o mesmo de jogar. O primeiro conjunto desenhado do zero para leitura saiu em Paris, em 1789, e foi obra de um homem que assinava com o próprio sobrenome escrito de trás para a frente: Etteilla.
Quem ele era
Por trás do pseudônimo estava Jean-Baptiste Alliette, parisiense, comerciante de origem modesta que virou professor de cartomancia profissional. Em 1770, mais de uma década antes da moda egípcia, ele já havia publicado um método para ler com baralho comum de trinta e duas cartas.
Quando a tese da origem egípcia ganhou a cidade, ele viu a oportunidade e migrou para o tarô. Não se limitou a adotar o baralho existente: redesenhou o conjunto inteiro segundo as próprias ideias, reordenando cartas e acrescentando temas que nada tinham a ver com a tradição italiana.
O que ele inventou e ficou
- Baralho de uso exclusivo para leitura, em vez do baralho de jogo adaptado
- Significados impressos na própria carta, para quem estava aprendendo
- Leitura invertida como prática sistemática, com sentido próprio para a carta de cabeça para baixo
- Ensino organizado, com discípulos, publicações periódicas e uma sociedade de leitores
Esse último ponto é o mais subestimado. Etteilla profissionalizou a atividade: criou material didático, formou gente e montou uma rede. Quase tudo que hoje parece tradição antiga na leitura de cartas passou por aquele estúdio parisiense.
O que não sobreviveu
O baralho dele, apesar de reeditado por décadas, perdeu espaço no século XX. A reordenação que ele fez dos trunfos não foi adotada pelos sistemas que vieram depois, e os baralhos que dominam hoje seguem outra linhagem, a que passa pela tradição inglesa do fim do século XIX.
Sobrou, porém, o formato: a ideia de que um baralho pode ser projetado com a leitura em mente, e não com a partida. Todo baralho temático publicado desde então deve isso a ele.
O que isso tem a ver com a leitura de hoje
Ajuda a situar a idade real das práticas. Quem lê com cartas invertidas está usando uma convenção de pouco mais de duzentos anos, e não uma herança imemorial. Isso não a torna pior: torna-a datada, e datar é o primeiro passo para discutir com honestidade.
O panorama da seção, com a linha do tempo inteira, está em Tarô: as 78 cartas e a história.
O que não dá para afirmar
A biografia dele é conhecida em parte por relatos próprios, que exageram formação e linhagem de conhecimento. A afirmação de que teria aprendido com um mestre italiano detentor de segredos antigos não tem confirmação independente, e segue o mesmo padrão de autoridade inventada que marcou a época.


