Se você usa um baralho de tarô comprado em livraria hoje, muito provavelmente ele descende, direta ou indiretamente, de uma sociedade secreta fundada em Londres em 1888 e que durou pouco mais de uma década antes de se esfarelar em brigas internas.
O que eles fizeram com o baralho
A ordem produziu documentos internos que organizavam o tarô como sistema fechado. Cada arcano maior recebeu uma letra hebraica, um signo, um planeta ou um elemento; cada naipe foi amarrado a um elemento; cada carta da corte ganhou posição numa grade de correspondências.
Não era invenção do zero: partiram do trabalho francês da geração anterior e o fecharam em tabela. O resultado foi um sistema compacto, ensinável e, sobretudo, coerente consigo mesmo.
A troca que ainda confunde todo mundo
Há um detalhe prático que atravessa até hoje. Para que a sequência dos arcanos maiores acompanhasse a ordem dos signos do zodíaco, foi preciso inverter a posição de duas cartas: a Justiça e a Força trocaram de número.
Por isso, num baralho de linhagem francesa a Força é a décima primeira carta, e num baralho de linhagem inglesa ela é a oitava. Quem compara livros de escolas diferentes sem saber disso acha que um dos dois está errado. Nenhum está: são tradições distintas.
Os dois herdeiros
A ordem reuniu gente que depois seguiu caminhos opostos, e dois de seus membros produziram os baralhos mais usados do mundo. Um deles concebeu, em 1909, o conjunto ilustrado que virou padrão. O outro encomendou, décadas depois, um baralho pintado que levou cinco anos para ficar pronto.
Ambos publicaram material que haviam jurado manter em segredo, e foi exatamente essa quebra de juramento que colocou o sistema à disposição do público. Sem ela, o tarô moderno provavelmente não existiria na forma que conhecemos.
O que isso tem a ver com a leitura de hoje
Significa que boa parte do que parece tradição antiga tem pouco mais de cem anos e endereço conhecido. As correspondências entre carta, signo e elemento não vieram da Itália renascentista: foram montadas em Londres, no fim do século XIX, por um grupo pequeno de pessoas com nome e sobrenome.
Isso não diminui o sistema. Só troca a autoridade do mistério pela autoridade da história, que é mais sólida. O panorama completo está em Tarô: as 78 cartas e a história.
O que não dá para afirmar
Os documentos internos da ordem circulam em várias versões, com diferenças entre cópias, e há disputa entre estudiosos sobre o que é original e o que foi acrescentado depois por discípulos. Qualquer tabela de correspondência apresentada como definitiva merece desconfiança.


