Olhe o próximo relógio de parede com algarismos romanos que cruzar o seu caminho. A chance de as quatro horas estarem escritas como IIII, e não como IV, é alta. A grafia correta em numeração romana moderna é IV. Os relojoeiros ignoram isso há séculos, e com motivos.
Primeira explicação: equilíbrio visual
Um mostrador se divide naturalmente em três blocos de quatro horas. Com IIII, cada bloco fica com um único tipo de símbolo dominante: de I a IIII só aparece o I; de V a VIII, o V acompanhado de I; de IX a XII, o X. A leitura fica mais regular, e o IIII, mais pesado, equilibra o VIII que fica exatamente do outro lado do círculo.
Essa é a explicação que mais convence quem desenha mostradores, porque é a única que se verifica olhando: troque mentalmente o IIII por IV e o lado esquerdo do relógio fica visualmente mais leve que o direito.
Segunda explicação: economia de fundição
Quando os algarismos eram peças separadas, fundidas ou recortadas e depois aplicadas no mostrador, usar IIII permitia um aproveitamento mais limpo do molde. O conjunto inteiro de um mostrador com IIII consome vinte I, quatro V e quatro X, números que se dividem bem em lotes iguais. Com IV, as contagens ficam irregulares e sobra peça.
Terceira explicação: a lenda do rei
A história mais contada diz que um rei francês teria exigido IIII por achar IV feio, ou por ser a abreviação do nome de um deus romano. É boa de contar e não se sustenta: mostradores com IIII existem desde muito antes do reinado citado, e a prática aparece em relógios de vários países ao mesmo tempo, sem decreto nenhum no meio.
O detalhe que quase ninguém conta
A própria Roma escrevia IIII com frequência. A notação subtrativa, aquela em que um símbolo menor antes de um maior indica subtração, era usada de forma irregular na Antiguidade e só virou padrão rígido na Idade Média e depois. Em inscrições e em relógios de sol romanos, o quatro aparece como quatro traços sem constrangimento algum.
Há exceções célebres no outro sentido: o relógio do parlamento britânico, o mais fotografado do mundo, usa IV.
O que isso tem a ver com numerologia
O caso mostra uma coisa que vale para toda tabela numérica: a forma de escrever um número é convenção, e convenção muda. Quem atribui significado ao desenho de um algarismo está lendo uma escolha histórica, e não uma propriedade do número.
É a mesma razão pela qual os algarismos que usamos hoje não têm parentesco com os romanos, assunto tratado em a história dos algarismos.
O que não dá para afirmar
Não existe sentido oculto na escolha, nem norma técnica que obrigue um lado ou outro. É tradição de ofício, mantida porque funciona bem e porque mostrador de relógio é um dos objetos mais conservadores que a gente fabrica.


