Tente multiplicar XLVII por XIX no papel. É um pesadelo, e essa dificuldade costuma virar piada sobre o atraso dos romanos. A piada erra o alvo, porque parte de uma suposição falsa: os romanos não faziam contas com os algarismos que escreviam.
Escrever e calcular eram duas coisas
Os algarismos romanos serviam para registrar o resultado, como se escreve um número por extenso num cheque. O cálculo acontecia em outro lugar: numa tábua de contagem, com linhas ou sulcos, sobre a qual se moviam pequenas pedras.
Cada linha valia uma ordem de grandeza. Mover pedras de uma linha para outra fazia o que hoje chamamos de vai um. Somar e subtrair era rápido, e um operador treinado batia com folga quem tentasse armar a conta por escrito.
A palavra que sobrou
Pedrinha, em latim, é calculus. Dessa palavra vieram calcular, cálculo e calculadora. E veio também, pela semelhança de forma, o nome das pedras que se formam nos rins. Toda vez que alguém fala em fazer um cálculo está dizendo, sem saber, que vai mexer umas pedrinhas.
Por que eles não precisavam de zero
Aqui está o ponto elegante. Numa tábua de contagem, a casa vazia já é o zero. A ausência de pedra naquela linha informa, sem ambiguidade, que a ordem de grandeza não tem valor. O vazio existe fisicamente, ocupando lugar, e por isso não precisa de símbolo.
O problema aparece quando se quer registrar aquilo por escrito e operar em cima do registro. Aí falta o zero, e foi exatamente esse passo que a aritmética indiana deu depois.
O que eles conseguiram fazer assim
Aquedutos com inclinação calculada ao longo de dezenas de quilômetros, estradas levantadas com instrumentos de visão, cúpulas, censos e um sistema fiscal que atravessava três continentes. A limitação romana estava na matemática abstrata, e não na engenharia aplicada. Eles mediam bem e construíam melhor ainda.
Havia também um ábaco de mão, em bronze, com sulcos e contas deslizantes, pequeno o bastante para caber no bolso. Era a calculadora de bolso do mundo antigo.
O que isso tem a ver com numerologia
Vale como lembrete de que o símbolo não é o número. Os romanos tinham o conceito de quantidade, a prática da conta e até a noção de casa vazia, sem ter o algarismo. Qualquer leitura que atribua poder ao desenho de um número esbarra nisso, como mostra o caso contado em a história dos algarismos.
O que não dá para afirmar
Não se sabe com precisão como cada operação mais complexa era conduzida na tábua, porque os manuais didáticos se perderam. O que sobrou são os instrumentos, algumas descrições indiretas e os resultados, que falam por si.


