O símbolo de porcentagem é estranho quando se olha com calma. Dois círculos e uma barra, sem nenhuma relação óbvia com cem. A explicação é que ninguém o desenhou: ele foi se deformando sozinho, ao longo de séculos, nas mãos de escribas com pressa.
A conta vem de Roma
A ideia de calcular por cem é muito anterior ao símbolo. Roma cobrava tributos definidos como frações de cem sobre vendas, e a própria organização militar usava o cem como unidade de referência, visto que a palavra centúria diz isso no nome.
A base cem tem a vantagem óbvia: comparação. Dizer que um imposto é de três por cem permite comparar com outro de cinco por cem sem precisar saber o valor absoluto de nada.
A abreviação que escorregou
No comércio italiano da Idade Média e do Renascimento, escrever per cento por extenso em cada linha do livro-caixa era desperdício de tinta e de tempo. Os escribas começaram a abreviar, e a abreviatura foi encolhendo de geração em geração.
Manuscritos italianos do século XV já mostram formas contraídas da expressão, em que a palavra cento vira um traço com dois pequenos círculos. Com o passar do tempo o traço inclinou, os círculos se firmaram em cima e embaixo, e por volta do século XVII o símbolo já se parecia muito com o atual.
Pelo mesmo caminho nasceram os parentes: o sinal de por mil, com um círculo a mais, e o de por dez mil, com dois, usados em finanças e em estatística.
A confusão que ainda derruba gente
Há uma diferença que custa caro em notícia e em contrato: por cento e ponto percentual não são a mesma coisa. Se uma taxa sobe de cinco por cento para dez por cento, ela subiu cinco pontos percentuais e, ao mesmo tempo, dobrou, ou seja, subiu cem por cento.
Quem relata a variação escolhendo o número que soa melhor não está necessariamente mentindo, e está dizendo muito pouco. Pedir sempre a base de comparação é o hábito que protege.
O que isso tem a ver com numerologia
O percentual é um ótimo exemplo de número que só significa alguma coisa junto do seu referencial. Trinta por cento não quer dizer nada sem saber trinta por cento de quê. A mesma exigência vale para qualquer leitura numérica: número fora de contexto é enfeite.
É a mesma cautela que aparece em cinco vieses que fazem qualquer leitura parecer certa.
O que não dá para afirmar
A linhagem exata do símbolo é reconstruída a partir de manuscritos dispersos, e os pesquisadores divergem sobre quais formas intermediárias vieram antes de quais. O que está bem estabelecido é a direção: de palavra escrita por extenso a abreviatura, e de abreviatura a sinal.


