Éliphas Lévi e a ligação entre o tarô e o alfabeto hebraico

Lamparina de latão acesa ao lado de um livro de capa de couro fechado, sobre mesa escura

A tese egípcia do tarô fez barulho, e foi outra que de fato pegou e organizou o campo. Ela veio de um francês que assinava Éliphas Lévi, e propõe uma coincidência numérica difícil de ignorar: os arcanos maiores são vinte e dois, e o alfabeto hebraico tem vinte e duas letras.

Quem foi

Por trás do nome estava Alphonse Louis Constant, nascido em Paris em 1810. Estudou para padre no seminário e não chegou a ser ordenado. Trabalhou como professor, escreveu panfletos políticos, foi preso por eles e acabou se voltando para o estudo do ocultismo, campo em que se tornou a maior referência da sua geração.

O próprio pseudônimo diz muito: ele adotou a versão hebraica do próprio nome. A direção que ele deu ao assunto foi essa mesma, da fantasia egípcia para o estudo da tradição cabalística.

A tese

Na obra que publicou em dois volumes, em meados da década de 1850, Lévi propôs que cada arcano maior corresponde a uma letra hebraica, e por extensão a um dos vinte e dois caminhos que ligam as esferas da Árvore da Vida.

Com isso, o baralho deixou de ser uma coleção de figuras soltas e virou um sistema com estrutura: cada carta passou a ter um lugar num mapa maior, com vizinhos definidos e relações calculadas. É essa arquitetura que boa parte da literatura de tarô ainda usa.

Por que ela se firmou

Porque era testável dentro dos próprios termos e produtiva. Diferente da origem egípcia, que só pedia fé, a correspondência com as letras permitia construir: atribuir, comparar, derivar. Quem viesse depois tinha o que fazer com ela.

Isso também explica por que o tarô aparece com tanta frequência ao lado da numerologia cabalística. As duas bebem da mesma estrutura de vinte e duas letras, assunto tratado em as 22 letras hebraicas e a gematria.

O cuidado histórico

A coincidência numérica é real, e não prova parentesco. Os vinte e dois trunfos surgiram na Itália do século XV, num ambiente de corte cristã, e nada nos documentos da época sugere intenção cabalística. A associação é uma leitura feita quatro séculos depois, por alguém que procurava justamente isso.

Ela pode ser útil como sistema de organização e não é um fato histórico sobre a origem do baralho. Manter as duas afirmações separadas é o que permite estudar o assunto sem constrangimento.

O que não dá para afirmar

Lévi nunca produziu um baralho próprio, e as atribuições que ele sugeriu foram alteradas por autores posteriores, que discordaram entre si sobre qual letra vai com qual carta. Não existe, portanto, uma tabela única de correspondência: existem várias, e elas competem.

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