Dentro do calendário tradicional chinês existe uma segunda estrutura, pouco conhecida fora da Ásia e essencial para entender o sistema: os vinte e quatro termos solares. Eles não seguem a Lua e dividem o ano pela posição do Sol, com cerca de quinze dias cada. É por causa deles que o calendário chinês funciona para a agricultura.
Como a divisão é feita
A regra é geométrica. O caminho aparente do Sol ao longo do ano é dividido em vinte e quatro arcos iguais, de quinze graus cada, e a entrada do Sol em cada arco marca o início de um termo. Como a divisão é solar, os termos caem sempre em torno das mesmas datas no calendário gregoriano, variando um ou dois dias.
Isso resolve um problema prático. Os meses lunares andam para frente e para trás em relação às estações, e por isso não servem para decidir quando plantar. Os termos solares ficam presos ao Sol e servem. O calendário tradicional carrega as duas coisas ao mesmo tempo: a Lua organiza os meses e o Sol organiza o trabalho no campo.
Alguns termos que vale conhecer
Os nomes descrevem o que acontece na natureza, e muitos são bem concretos:
- Lichun, o início da primavera, em torno de quatro de fevereiro. É a data usada por várias escolas de análise dos quatro pilares como virada do ano.
- Chunfen, o equinócio de primavera, em torno de vinte de março.
- Qingming, em torno de cinco de abril, associado à visita aos túmulos dos antepassados e feriado em vários lugares.
- Xiazhi, o solstício de verão, em torno de vinte e um de junho.
- Bailu, literalmente orvalho branco, em torno de oito de setembro, quando a umidade começa a condensar de manhã.
- Dongzhi, o solstício de inverno, em torno de vinte e um de dezembro, referência para o cálculo do Ano Novo.
Repare que esses nomes descrevem o clima do norte da China, região onde o sistema se formou. No hemisfério sul, as estações estão invertidas, e por isso o início da primavera chinesa cai no nosso verão. É um descompasso que vale ter em mente e que nenhuma adaptação resolve de forma simples.
Reconhecimento internacional
Em 2016 o sistema dos vinte e quatro termos solares foi inscrito na lista de patrimônio cultural imaterial da humanidade mantida pela Unesco, com a candidatura apresentada pela China. O reconhecimento considerou tanto o valor astronômico quanto o papel do calendário na organização de práticas agrícolas, alimentares e festivas que seguem vivas.
A ligação com o mês intercalar
Os termos solares têm ainda uma função técnica dentro do calendário: eles ajudam a decidir qual mês lunar será duplicado nos anos de treze meses. A regra tradicional observa a relação entre os meses lunares e os termos principais, e o mês que não contiver um desses marcos é o candidato a mês intercalar.
Esse é o ponto em que os dois sistemas conversam. Quem estuda por que o Ano Novo chinês muda de data encontra aqui a outra metade da explicação: a Lua dá o início dos meses e o Sol decide qual deles se repete.