Toda coincidência marcante vem com a mesma frase: as chances disso eram mínimas. Quase sempre essa frase está errada, e não por pouco. Existe um campo inteiro da estatística dedicado a mostrar por quê, e ele é útil para quem leva números a sério.
O problema dos aniversários
Comece pelo exemplo clássico. Numa sala com 23 pessoas, qual a chance de duas fazerem aniversário no mesmo dia? A resposta é pouco mais de 50 por cento. Com 57 pessoas, passa de 99 por cento.
A intuição erra feio porque pensa na pergunta errada. Não se trata de alguém coincidir com você, e sim de qualquer par coincidir entre si. Com 23 pessoas há 253 pares possíveis, e é a quantidade de pares que faz o trabalho. Essa diferença entre uma comparação e todas as comparações está no coração de quase toda coincidência espantosa.
A lei dos números verdadeiramente grandes
Em 1989, os estatísticos Persi Diaconis e Frederick Mosteller formularam a regra geral: com uma amostra suficientemente grande, qualquer coisa absurda tende a acontecer. Não é que o improvável seja provável; é que há tantas oportunidades que o improvável aparece de qualquer jeito.
Aplicando ao Brasil: um evento com chance de um em um milhão por pessoa por dia aconteceria, em média, com mais de duzentas pessoas todo dia neste país. E cada uma delas teria uma história extraordinária para contar, com toda razão.
A lei de Littlewood
O matemático John Littlewood propôs uma conta simples e provocativa. Considere que uma pessoa fica alerta cerca de oito horas por dia e que acontece com ela um evento por segundo, contando tudo o que vê e ouve. Isso dá cerca de um milhão de eventos a cada trinta e poucos dias. Se milagre é um evento de chance um em um milhão, então cada pessoa deveria viver um milagre por mês, aproximadamente.
Por que isso importa para quem gosta de números
Porque o relato típico de coincidência numérica tem exatamente a estrutura que essas leis explicam. A pessoa não escolheu o número de antemão, não contou as vezes em que nada aconteceu e aceita qualquer formato de encontro: placa, hora, troco, página. Com tantos canais e tanta liberdade de definição, o encontro deixa de ser raro.
O teste que separa uma coisa da outra é simples: escreva antes. Defina qual número, em que prazo e em que forma conta. Previsão feita antes vale; reconhecimento feito depois vale muito pouco. O mesmo raciocínio aparece em por que vemos números repetidos e em sincronicidade segundo Jung.
O que não dá para afirmar
Nada disso prova que coincidências não têm sentido para quem as vive. Explicar a frequência não é explicar o significado, e as duas perguntas são diferentes. O que não se sustenta é usar a raridade aparente de um evento como argumento, porque essa raridade quase nunca foi calculada, e quando é calculada costuma encolher bastante.
A numerologia é uma ferramenta de autoconhecimento e reflexão. Ela não substitui orientação médica, psicológica, jurídica ou financeira.