Escreva 1.234 para um brasileiro e ele lê mil duzentos e trinta e quatro. Mostre o mesmo número a um americano e ele lê pouco mais de um. São os mesmos quatro algarismos e o mesmo ponto, com dois significados que diferem por um fator de mil.
A fração decimal é mais nova do que parece
Escrever parte de um inteiro depois de um separador só se popularizou no fim do século XVI, com o trabalho do matemático flamengo Simon Stevin, que defendeu o uso de frações decimais em medidas e moedas. A notação dele era desajeitada, com marcadores para cada casa, e logo foi simplificada por outros.
Foi nessa simplificação que a estrada se bifurcou. Alguns autores adotaram o ponto como separador, outros a vírgula, e nenhuma autoridade existia para arbitrar. Cada tradição nacional ficou com a que entrou primeiro nos seus livros didáticos.
O mapa de hoje
- Vírgula no Brasil, em Portugal, na maior parte da Europa continental e da América do Sul
- Ponto nos países de língua inglesa, no México, na China e no Japão
- Os dois, dependendo da área, em países como África do Sul e Canadá, que convivem com as duas tradições
O pior da confusão não está no separador decimal em si, e sim no separador de milhar, que usa justamente o outro símbolo. É a combinação dos dois que cria a ambiguidade perfeita.
A norma que quase ninguém segue
Há solução oficial. As conferências internacionais de pesos e medidas, que cuidam do sistema de unidades, aceitam tanto a vírgula quanto o ponto como marcador decimal, e recomendam que os grupos de três algarismos sejam separados por um espaço fino, nunca por ponto nem por vírgula.
É por isso que artigos científicos escrevem números grandes com espaços no lugar dos pontos. Fora da ciência, a recomendação é largamente ignorada, e o custo aparece em planilha importada, em sistema mal configurado e em pedido de compra com três zeros a mais.
O que isso tem a ver com numerologia
Qualquer cálculo numerológico feito a partir de data ou documento depende de ler o número certo. Parece óbvio e não é: formulários internacionais, planilhas e sistemas importados trocam separadores com frequência, e quem copia sem conferir calcula outra coisa.
É o mesmo tipo de descuido que faz dois aplicativos darem resultados diferentes para a mesma pessoa.
O que não dá para afirmar
Nenhum dos dois costumes é mais correto que o outro. São convenções, e convenção se respeita no contexto em que se está escrevendo. O erro não é usar vírgula ou ponto: é não dizer qual dos dois está sendo usado quando o texto atravessa fronteira.


