O tarô no Brasil: como as cartas chegaram e se espalharam

Casario colonial sul-americano ao sol, com fachadas antigas

A história do tarô no Brasil não é a história de uma chegada única. São duas trajetórias diferentes que se cruzaram tarde: a do baralho como jogo, que veio com a colonização, e a do baralho como instrumento de leitura simbólica, que chegou muito depois e por outro caminho.

Primeiro vieram as cartas de jogar

Cartas de jogar circularam em território português e brasileiro desde cedo no período colonial, como entretenimento e como aposta. Autoridades coloniais e eclesiásticas se ocuparam disso repetidas vezes, com proibições e restrições ao jogo, o que indica o quanto a prática era comum. Nessa fase, porém, trata-se de jogo: nada indica uso divinatório sistemático de baralhos no Brasil colonial.

Vale separar as duas coisas porque elas têm origens distintas também na Europa. O tarô nasceu como jogo de cartas no norte da Itália no século quinze, e só ganhou função adivinhatória na França, no fim do século dezoito, com a leitura simbólica proposta por Court de Gébelin e com o primeiro baralho feito de propósito para consulta, de Etteilla.

O caminho francês até a leitura brasileira

A versão esotérica do tarô que circula no Brasil veio sobretudo do ocultismo francês do século dezenove, que atribuiu ao baralho correspondências com a cábala e com a astrologia, linha associada principalmente a Eliphas Lévi e aos autores que o seguiram. O Brasil letrado do século dezenove lia em francês, e foi por aí que esse corpo de ideias entrou, junto com o espiritismo e com outras correntes do mesmo período.

É por isso que a nomenclatura usada aqui segue tanto o modelo francês: Marselha como referência de desenho, arcanos maiores e menores como divisão, e a numeração em algarismos romanos. A tradição inglesa, que organizou outro sistema de imagens no início do século vinte, chegou ao Brasil mais tarde e hoje convive com a francesa.

A lei, a polícia e a discrição

Há um fator que explica boa parte do silêncio documental sobre leitura de cartas no Brasil até meados do século vinte: a adivinhação foi tratada como crime ou contravenção. O Código Penal de 1890 previa punição para práticas de magia e para quem exercesse ofício de adivinhar, e dispositivos semelhantes atravessaram décadas na legislação brasileira antes de serem abrandados.

A consequência prática é conhecida pelos historiadores que estudam religião no Brasil: a atividade existia e acontecia na discrição, em casa, por indicação, sem anúncio. Quem procurava leitura de cartas sabia a quem recorrer sem que houvesse placa na porta, e o mesmo valia para outras práticas divinatórias.

O tarô dividiu espaço com tradições mais antigas

Este é o ponto que mais se perde quando se conta a história do tarô no país. O tarô não chegou a um terreno vazio: o Brasil já tinha práticas divinatórias enraizadas, de matriz africana, indígena e popular ibérica, cada uma com método e vocabulário próprios. O tarô entrou nesse conjunto como mais um sistema, e não como substituto de nada.

E, no campo específico da cartomancia, ele não foi o mais popular. O baralho cigano, de trinta e seis cartas e lógica completamente diferente, se espalhou com enorme força no Brasil e segue sendo, em muitas regiões, mais conhecido que o tarô. Quem diz baralho em contexto de consulta, no país, muitas vezes não está falando de tarô.

A popularização: livro, banca e internet

A difusão em massa veio em duas ondas bem identificáveis. A primeira foi editorial, a partir das décadas de setenta e oitenta, com a expansão do mercado de livros esotéricos no país, traduções, baralhos importados e, pouco depois, baralhos produzidos aqui. A segunda foi digital, a partir dos anos dois mil, e mudou a escala: o estudo deixou de depender de encontrar um professor e passou a acontecer por texto, vídeo e curso a distância.

Essa segunda onda trouxe um efeito colateral que vale nomear. Com a oferta enorme e sem nenhuma regulamentação profissional, a qualidade varia de forma extrema, e cabe a quem procura avaliar com cuidado. Vale conhecer os critérios para avaliar um tarólogo antes de contratar qualquer consulta.

O que se pode afirmar e o que não

A história do tarô no Brasil ainda está mal documentada, e isso é honesto dizer. Há boa pesquisa acadêmica sobre religiosidade e sobre o que se chamou de nova era no país, mas pouca coisa específica sobre cartomancia, justamente porque a prática foi clandestina por muito tempo e deixou pouco registro escrito. Quem afirma datas precisas de chegada, nomes de primeiros leitores ou números de praticantes costuma estar repetindo informação sem fonte.

O que se pode dizer com segurança é o desenho geral: jogo primeiro, leitura simbólica depois, por via francesa, em convivência com tradições divinatórias já existentes, sob restrição legal por décadas, e com popularização recente por livro e por internet. É menos pitoresco que as versões que circulam, e é o que o material disponível sustenta.

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